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A primeira classificação das
cefaléias, publicada em 1962, já incluía a cefaléia em salvas (CS),
relatando características clínicas como unilateralidade,
fenômenos autonômicos e ritmicidade. A classificação seguinte e
os critérios diagnósticos estabelecidos para as cefaléias
(Quadro 2), foram apresentados em setembro de 1987, ao fim do
terceiro Congresso Internacional de Cefaléia, em Florença,
vigorando por vários anos. |

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Foi recebida imediatamente pela
comunidade científica, guiando muitas entrevistas médicas e sendo a
base para seriedade de muitas publicações. Modificações foram
sugeridas ao longo dos últimos anos e vários estudos anteriores
demonstravam a ausência de aspectos da dor na classificação.
A atual classificação foi divulgada em Roma, no Congresso
Internacional de Cefaléia em 2003 (Quadro 3). É imperativo que a
comunidade médica use os mesmos critérios para diagnóstico,
promovendo uma unidade na abordagem. |
Quadro 2 - 1ª Edição da
Classificação da SIC – 1988
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3. Cefaléia em Salvas e
Hemicrania Paroxística Crônica
3.1 Cefaléia em salvas
3.1.1 Cefaléia em
salvas de periodicidade não determinada
3.1.2 Cefaléia em
salvas episódica
3.1.3 Cefaléia em
salvas crônica
3.1.3.1 Sem
remissões desde o início
3.1.3.2
Proveniente de episódica
3.2 Hemicrania
Paroxística Crônica |
Quadro 3 - 2ª Edição da
Classificação da SIC – 2004
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3. Cefaléia em salvas e outras
cefaléias autonômico-trigeminais
3.1. Cefaléia em
salvas
3.1.1. Cefaléia
em salvas episódica
3.1.2. Cefaléia
em salvas crônica
3.2. Hemicrania
paroxística
3.2.1.
Hemicrania paroxística episódica
3.2.2.
Hemicrania paroxística crônica
3.3. SUNCT
3.4. Provável cefaléia
autonômico-trigeminal
3.4.1. Provável
cefaléia em salvas
3.4.2. Provável
hemicrania paroxística
3.4.3. Provável
SUNCT |
A cefaléia em salvas é caracterizada
por:
A. Pelo menos cinco crises preenchendo
os critérios de B a D
B. Dor forte e muito forte unilateral, orbitária, supra-orbitária
e/ou temporal, durando de 15 a 180 minutos, se não tratada
C. A cefaléia acompanha-se de pelo menos um dos seguintes:
1. hiperemia conjuntival e/ou lacrimejamento ipsilaterais
2. congestão nasal e/ou rinorréia ipsilaterais
3. edema palpebral ipsilateral
4. sudorese frontal e facial ipsilateral
5. miose e/ou ptose ipsilateral
6. sensação de inquietude ou agitação
D. As crises têm uma freqüência de uma a cada dois dias a oito por
dia
E. Não atribuída a outro transtorno
Cerca de 10 a 15% dos pacientes têm
sintomas crônicos sem remissões. Para ser caracterizada CS crônica,
a dor deve ocorrer por pelo menos um ano, sem remissão ou com
remissões menores que um mês. Pode ser crônica desde o início
(previamente denominada CS crônica primária) ou evoluir da episódica
(previamente denominada CS crônica secundária). Há também a
possibilidade do paciente evoluir da forma crônica para a episódica.
Foram identificados possíveis fatores preditivos para um risco
aumentado de evolução desfavorável da forma episódica para a forma
crônica. O início tardio, a presença de ataques esporádicos, uma
freqüência alta de períodos de salva e uma curta duração dos
períodos intercrises podem significar o agravamento do quadro. As
razões para a evolução de episódica para crônica ainda são
desconhecidas, mas alguns fatores, como trauma craniano, variações
no estilo de vida (por exemplo, tipo de cigarro, freqüência de uso
de álcool, etc.), foram indicados como influência negativa com o
passar do tempo no curso da dor.
A localização retrorbitária (92%) é a mais freqüente, seguida da
localização temporal. Em um estudo recente com 230 pacientes, a dor
foi estritamente unilateral em todos pacientes estudados, não
havendo predileção significativa pelo lado da dor. Nos casos
episódicos, 14% tiveram alternância na mesma salva e 18% na salva
seguinte. Dois pacientes apresentaram mudança do lado da dor durante
a mesma crise. Alguns casos raros de dor bilateral já foram
descritos e podem se apresentar de várias formas: alternância de
lado em salvas distintas e alternância de lado na mesma salva, como
observadas neste estudo citado ou até mesmo bilateral na mesma
crise.
Segundo os autores deste estudo, a duração média máxima de uma crise
foi de 159 minutos enquanto a duração média mínima foi de 72
minutos. O número máximo de crises foi de cinco nas 24 horas. A
média de tempo de remissão foi de um ano, tendo relatos de remissão
de 20 anos e o menor de oito semanas.
A maioria referiu predileção pelas
estações de outono e primavera, inclusive os pacientes com CS
crônica, que relataram exacerbação das crises nestas estações. As
crises noturnas foram observadas em 73% dos pacientes, acordando-os
à noite.
O lacrimejamento é o sinal autonômico mais freqüente, seguido por
hiperemia conjuntival e congestão nasal. Há também relatos de
náusea, fotofobia, fonofobia e osmofobia durante a crise. A náusea e
os vômitos são mais freqüentes nas mulheres com CS (46,9% vs.
17,4%), enquanto a fotofobia, a fonofobia e a osmofobia se
manifestam proporcionalmente em homens e mulheres. A agitação e a
inquietude durante a crise foi relatada por 93% dos pacientes e não
houve exacerbação da dor pelos movimentos, importante fato no
diagnóstico diferencial. Sacquegna e col., em 1987, estudaram o
curso de 72 pacientes com cefaléia em salvas episódica, observando
que 86% dos casos tinham freqüência regular das salvas por ano e 69%
tinham regularidade na freqüência e duração das salvas. A maioria
tinha uma salva por ano. O autor sugere que a história natural seja
caracterizada pela regularidade, envolvendo mecanismos de controle
biológico.
Os sintomas de aura em associação à crise de CS têm sido descritos
em aproximadamente 6% dos pacientes. Neste grupo de 101 pacientes
estudados por Siberstein e col., a aura durou de cinco a 120 minutos
e ocorreu antes da dor em todos os casos. No estudo realizado por
Bahra, May e Goadsby, em 2002, 14% dos pacientes mencionaram a
presença de aura, semelhante à aura migranosa, durando até 60
minutos, ocorrendo antes ou após a dor. A maioria (70%) apresentou
sintomas visuais, também ocorrendo relatos de hemiparesia (16%) e
hemiparestesia (13%). No mesmo estudo, 36% dos pacientes com aura
tinham migrânea concomitante, sendo que destes pacientes, 40% tinham
migrânea com aura. A hemiparesia também foi descrita em quatro casos
por Siow e col. (2002), sendo que um dos casos apresentava história
familiar semelhante. Os autores interrogam a possibilidade de ser
uma canalopatia, com herança autossômica dominante em alguns casos.
Na migrânea hemiplégica, a hemiparesia usualmente é precedida pela
dor e pode durar menos de uma hora, até dias ou semanas.
Recentemente, outros casos foram descritos e verificou-se uma
canalopatia nos canais de cálcio, com mutação específica nos canais
de cálcio alfa tipo P/Q, subunidade 1A (CACNA1A), cromossomo 19 p13.
Talvez estudos genéticos posteriores possam elucidar a causa do
chamado “hemiplegic cluster disorder”.
Alguns fatores são considerados como deflagradores da crise, como o
álcool, medicamentos vasodilatadores, histamina, sono, alterações
comportamentais, aumento das atividades física, mental ou emocional.
As alterações emocionais parecem influenciar principalmente os casos
crônicos.
Com os estudos evidenciando sintomas freqüentemente associados à
dor, várias sugestões foram sendo feitas para inclusão de algumas
características à classificação. Alguns itens foram considerados e
incluídos, como a agitação e a inquietude durante a crise, descritas
por vários autores.
Fenômenos sensoriais, como fotofobia, fonofobia e osmofobia, e a
possível presença de náuseas e vômitos, são descritos em vários
estudos. Segundo Van Vliet e col. (2003), este é um dos motivos
principais para o erro diagnóstico pelo não especialista, muitas
vezes confundindo-a com a migrânea. Um relato freqüente é a ausência
de exacerbação da dor com esforço físico, ajudando no diagnóstico
diferencia.
O quadro clínico observado em casos genéticos parece não se alterar.
O que foi representativo no estudo de Torelli e Manzoni (2003) onde
foram estudados 19 casos entre familiares foi a precocidade do
início da dor nos casos do sexo feminino.
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