DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL

 
A cefaléia em salvas (CS) apresenta um quadro clínico bastante definido, com características bem marcantes que facilitam o diagnóstico clínico. Devemos ficar atentos à classificação, seguindo sempre os critérios diagnósticos e captar imediatamente detalhes atípicos que podem nos conduzir ao diagnóstico diferencial correto. Devemos nos ater às cefaléias autonômico-trigeminais e suas variações, às cefaléias noturnas e às cefaléias secundárias que podem se manifestar inicialmente com o quadro da CS.
Cefaléias primárias:
- Hemicrania Paroxística (HP):
A HP, primeiramente descrita por Sjaastad e Dale, em 1974, apresenta características similares de dor e sinais e sintomas da CS, mas as crises são mais curtas, mais freqüentes e esta, é mais comum em mulheres.

 

É definida como dor unilateral, geralmente periorbital ou temporal, com duração de dois a 30 minutos, com freqüência superior a cinco por dia. A dor é associada a pelo menos um fenômeno autonômico. A resposta absoluta ao tratamento com a indometacina, a predominância no sexo feminino, a duração curta e a freqüência maior de dor a diferem da CS. A HP pode ser crônica, como primeiramente descrita, ou episódica, onde apresenta períodos de remissão de semanas ou meses, semelhante à CS episódica.

- Neuralgia do Trigêmeo:
A neuralgia do trigêmeo, colocada na classificação sob o dígito 13:1, freqüentemente é confundida com a CS. Caracteriza-se por paroxismos de dor na distribuição de um ou mais ramos do nervo trigêmeo. Um aspecto característico é a zona gatilho, cuja estimulação dispara um paroxismo de dor típico. O primeiro ramo é acometido em menos de 5% dos pacientes.
- Short-lasting Unilateral Neuralgiform Headache
Attacks with Conjunctival Injection, Tearing,
Sweating, and Rhinorhea (SUNCT):
SUNCT, como é denominada na literatura internacional, faz parte da classificação de 2004 sob o dígito 3.3 e é denominada como cefaléia neuralgiforme com crises de curta duração, unilateral, com injeção conjuntival e lacrimejamento. Apesar da tradução, ela permanecerá sendo referida como SUNCT. É caracterizada por crises de dor unilateral de curta duração, durando de cinco a 240 segundos. Podem ocorrer três a 200 ataques por dia, geralmente em torno de 28. A hiperemia conjuntival, o lacrimejamento e a rinorréia são as alterações autonômicas mais comuns. Para se atribuir o diagnóstico, são necessárias pelo menos 20 crises preenchendo os critérios da classificação atual. Alguns pacientes referem fatores precipitantes, como certos movimentos do pescoço. É refratária a qualquer tratamento, inclusive à indometacina. Os pacientes podem apresentar apenas um dos sintomas autonômicos (injeção conjuntival, lacrimejamento ou edema palpebral). SUNCT pode ser uma sub-forma de A3.3 – “Cefaléia neuralgiforme com crises de curta duração, unilateral, com sintomas autonômicos (SUNA)”, descrita no apêndice.
- Hemicrania Contínua (HC):
A HC foi descrita oficialmente em 1984 por Sjaastad e Spierings. Aproximadamente 100 casos já foram descritos até os dias de hoje e na classificação internacional das cefaléias - 2ª edição - 2004, foi inserida sob o dígito 4 – “Outras cefaléias primárias”, por serem os aspectos autonômicos menos pronunciados. É estritamente unilateral, apesar de casos relatados de acometimento bilateral ou alternante. A intensidade é geralmente moderada, podendo ser intensa em casos esporádicos. A presença de fenômenos autonômicos está mais associada ao momento de forte intensidade da dor. Apresenta resposta absoluta à indometacina e casos não responsivos não podem ser diagnosticados de HC, segundo os autores que a descreveram. É mais comum no sexo feminino, na proporção de 2,8:1.
- Cefaléia Hípnica:
Descrita inicialmente por Raskin, em 1988, a cefaléia hípnica foi incluída na nova classificação sob o dígito 4.5, e é descrita como um tipo de cefaléia primária rara, ligada ao sono REM. Geralmente acorda o paciente no mesmo horário, muitas vezes durante um sonho, apresentando-se difusa, bilateral, associada a náuseas, sem sinais autonômicos. Inicia-se em idade avançada. É bem diferenciada da CS por sua localização bilateral, pela ausência de sinais autonômicos, porém a periodicidade e a resposta ao lítio sugerem envolvimento do relógio biológico de ambas. Mais de 50 casos já foram descritos na literatura, porém poucos pacientes realizaram polissonografia noturna para avaliação da ligação da dor com os estágios do sono. Em um estudo polissonográfico realizado com três pacientes com cefaléia hípnica, um paciente apresentou dor durante o sono REM. Outro paciente, estudado isoladamente, apresentou dor no estágio 3. Pinessi e col., em 2003, estudaram dois pacientes polissonograficamente e quatro crises foram registradas. Todas ocorreram durante o sono REM, reforçando esta associação. A prevalência de cefaléia hípnica parece ser de 0.07% a 0.1% nos pacientes com cefaléia registrados em centros específicos.

Cefaléias secundárias:
São os denominados Cluster-like, isto é, que mimetizam a CS. Pela classificação atual, a cefaléia será codificada de acordo com a moléstia de base.
Kuritzky, em 1984, relatou um caso de meningioma com compressão do tronco cerebral e hipoxemia associada à doença pulmonar crônica, que apresentou remissão do quadro de CS após a retirada do tumor.
A síndrome de Tolosa-Hunt é uma oftalmoplegia dolorosa, com períodos de remissão e recidiva, causada provavelmente por uma inflamação intracavernosa. É bem diferenciada da CS pela paresia de um ou mais nervos oculomotores.
Um outro caso descrito foi o de um paciente que apresentou simultaneamente esclerose múltipla e crises típicas de CS. A neuroimagem evidenciou lesão desmielinizante na ponte, na área da raiz trigeminal, ipsilateral à dor. Recentemente, Seijo-Martinez e col. (2004) relataram um caso de cefaléia em salvas associado à siringomielia cervical e malformação de Arnold-Chiari. Todas as características a incluíam no diagnóstico de cefaléia em salvas, mas a paciente apresentava a capacidade de deflagrar a dor com movimentos específicos da região cervical. A paciente foi operada e foi realizada uma descompressão do forame magno e uma redução da cavidade cervical, com remissão da dor.
Há também casos de pacientes que desenvolveram crises após algum procedimento, dentre eles, seis casos de pacientes do sexo masculino que desenvolveram CS após enucleação do olho, com intervalo de tempo que variou de três semanas até 18 anos. Há casos também de CS pós-trauma craniano com intervalos de tempo bastante variáveis e a relação destes acontecimentos com o desenvolvimento posterior da dor ainda não está esclarecida.
Portanto, os casos de CS secundária são raros mas devem sempre ser considerados.