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Hipóteses têm sido sugeridas por vários autores ao longo dos tempos,
principalmente concentrando a gênese da dor em dois mecanismos
principais: central e periférico. A dor que, por anos, foi conhecida
como uma desordem vascular, nos últimos três anos obteve um
progresso considerável no seu entendimento fisiopatológico, apesar
de ainda não estar totalmente elucidada. A teoria vascular tem sido
substituída pela teoria neurovascular, com vários componentes
interligados. Vários estudos têm sido feitos na tentativa de
elucidar a fisiopatologia e já houve referência à presença de
alterações imunes encontradas e disfunções mitocondriais, porém não
há dados suficientes na literatura para qualquer tipo de conclusão.
Estas pesquisas visam, entre outros interesses, o desenvolvimento de
drogas para o tratamento. Apesar de muitos avanços, muitas dúvidas
ainda persistem e os estudos ainda não são capazes de explicar
completamente o quadro clínico. Uma hipótese completa deveria
englobar as três principais características da dor: distribuição
trigeminal, disfunções autonômicas e a ritmicidade circadiana das
crises. Sobre as características do quadro clínico e os mecanismos
propostos, podemos destacar:
A - Distribuição Trigeminal e Fenômenos Autonômicos
O acometimento da artéria carótida na sua porção cavernosa foi
largamente sugerido. Seria a hipótese periférica, principalmente
explicando vieses que a hipótese central não justifica. O seio
cavernoso é o ponto de interseção da primeira divisão do nervo
trigêmeo, de ramos simpáticos e parassimpáticos de nervos cranianos
e da artéria carótida. Ekbom e Greitz, em 1970, demonstraram através
de angiografia realizada durante a crise, uma dilatação da artéria
carótida interna, na sua porção cavernosa, e uma dilatação da
artéria oftálmica. Há indicações de que a artéria carótida interna e
seus ramos estejam envolvidos nos sintomas autonômicos da crise.
Parece haver uma inflamação neurogênica autonômica cíclica. Baseados
em resultados de flebografias orbitais e sinais inflamatórios,
alguns autores acreditam que haja uma vasculite venosa no seio
cavernoso, gerando “simpaticoplegia temporária” nos casos
episódicos. Nos crônicos, seria uma simpaticoplegia permanente. O
padrão de disfunção autonômica da CS pode ser reproduzido através da
lesão das fibras simpáticas pós-ganglionares. Moskowitz e Sjaastad,
em 1988, primeiramente propuseram o envolvimento do seio cavernoso
na origem do quadro doloroso da CS. Hannerz, em 1989, relatou o caso
de um paciente com meningioma parasselar que se apresentava como CS
e que após a ressecção do tumor, não houve mais sintomas. O autor
refere o papel do seio cavernoso no quadro da dor.
A hipótese de vasculite foi sugerida por haver características
comuns com a Síndrome de Tolosa-Hunt, além de achados termográficos
e flebogramas orbitais patológicos. Sugere-se que a simpatoplegia na
CS corresponde à oftalmoplegia da Síndrome de Tolosa-Hunt. Haveria
uma inflamação situada no seio cavernoso e veias tributárias, com
lesão de fibras simpáticas. Seria uma inflamação recorrente,
obedecendo ao ritmo circadiano. A resposta ao corticóide é mais um
fator favorável à hipótese. Goadsby, Bahra e May, em 1999, através
da tomografia por emissão de pósitrons, demonstraram que após
injeção de capsaicina, havia aumento do fluxo carotídeo, compatível
com as observações feitas em pacientes com CS. Estes achados
evidenciam que a dor extrema mediada pela porção oftálmica do
trigêmeo, de qualquer etiologia, pode desencadear aumento do fluxo
cavernoso, como parte de um reflexo trigêmino-parassimpático, já bem
demonstrado em experimentos com animais.
A teoria vascular foi sustentada por Harold G. Wolff, onde foi
proposta uma desordem no controle dos mecanismos vasculares
cefálicos. Estudos com antagonistas dos canais de cálcio reforçaram
a hipótese. Dahl, em 1990, demonstrou através do doppler
transcraniano, uma redução da velocidade no fluxo da artéria
cerebral média no lado sintomático, sugerindo que tanto os ataques
espontâneos quanto os provocados são acompanhados de vasodilatação
da mesma, com maior expressão ipsilateral. Alterações no fluxo da
artéria cerebral anterior também foram detectadas, até mesmo fora da
salva. Waldenlind e col., em 1993, analisou através da angiografia
por ressonância magnética, duas crises em um mesmo paciente e o
mesmo fora da crise. Detectou dilatação na artéria oftálmica
ipsilateral nas duas crises, sem alteração na artéria carótida
interna. Fora da crise, o paciente apresentou exame normal.
Somerville, em 1994, verificou em um paciente, dilatação da artéria
oftálmica bilateralmente, durante a crise, enquanto não houve
qualquer alteração no calibre da artéria cerebral anterior. Shen, em
1993, detectou diminuição do fluxo da artéria cerebral média após 30
minutos do início da crise, no lado sintomático, e 50 minutos após,
no outro. O autor acredita que as alterações no fluxo seriam
secundárias a um gatilho central. Portanto, um epifenômeno. Apesar
do provável envolvimento do componente periférico, não explicaria as
alterações no ritmo cardíaco e a alteração bilateral do reflexo
pupilar, evidências de acometimento generalizado, em alguns
pacientes. Possivelmente há comprometimento do controle simpático
central. A alta freqüência de fotofobia, náuseas e vômitos,
considerados sintomas autonômicos gerais corroboram a suposição.
B - Sistema Trigêmino-Vascular
O sistema trigêmino-vascular consiste em neurônios que inervam vasos
cerebrais e a dura-máter e cujos corpos celulares estão localizados
no gânglio trigeminal. O gânglio contém células bipolares e as
fibras periféricas fazem uma conecção sináptica com vasos e outras
estruturas cranianas, principalmente ligadas à dor. Algumas
projeções englobam vasos intra e extracranianos. Peptídeos
vasodilatadores como peptídeo relacionado ao gene da calcitonina (CGRP),
substância P e neuroquinina A foram encontrados nos corpos celulares
do gânglio trigeminal. A combinação destas substâncias em cada
célula gera uma alteração funcional que ainda não está totalmente
elucidada, porém há possibilidade desta inervação neurovascular ser
homogênea na ação vasodilatadora. Parece que o CGRP, além da
participação na regulação cerebrovascular, também atua na
transmissão sensitiva. Está aumentado na circulação craniana durante
uma crise de dor. Estudos experimentais com substâncias agonistas
seletivas dos receptores adenosina A1 (GR79236 e GR190178) sugerem
uma inibição potente e dose-dependente da ativação nociceptiva
trigêmino-vascular. Ambas as substâncias reduzem o nível de CGRP na
circulação cerebral. O fato é que há uma diminuição da atividade
simpática e uma hiperfunção parassimpática. O envolvimento de ambos
os sistemas pode ser observado pela presença de CGRP e peptídeo
vasoativo intestinal (VIP), respectivamente marcadores do simpático
e do parassimpático, detectados no sangue colhido na veia jugular
ipsilateral à dor, durante a crise. A ação do sumatriptano e do
oxigênio normalizando o CGRP parece ser a explicação para o
abortamento da dor.

O óxido nítrico possivelmente tem ação nas cefaléias com alterações
vasculares, deflagrando a inflamação neurogênica e ativando fibras
nociceptivas trigeminais. Na CS, sua participação ainda não foi bem
estabelecida. Um estudo avaliando a concentração plasmática dos seus
principais metabólitos (nitrito e L-citrulina) em pacientes com CS e
grupo-controle não mostrou diferença estatística, porém outros
autores reafirmam sua importância pela sua presença tanto nos
neurônios, como no endotélio dos vasos. O fato de a dor ser
deflagrada pelo gliceril trinitrato, um precursor do óxido nítrico,
aumenta a possibilidade da sua participação na patogênese. Ekbom e
col., em 2004, analisaram pacientes com CS, fora do período da
salva, tratados com um tipo de nitrato orgânico para angina pectoris.
Observaram reinício do quadro de dor de forma súbita, mesmo naqueles
que há muito não apresentavam quaisquer sintomas.
Embora o envolvimento das estruturas neurovasculares crânio-faciais
expliquem em parte o quadro da CS, não seria suficiente para
justificar a característica cíclica dos ataques e das salvas. A
possibilidade de um mecanismo central na gênese passou a ser
sugerida.
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C - Participação Hipotalâmica
A ritmicidade levou a vários estudos para comprovar a participação
do hipotálamo, principalmente do relógio biológico: o núcleo
supraquiasmático constituído de dois pequenos grupos de células
localizados no hipotálamo anterior, dorsalmente ao quiasma óptico.
Baseados na existência de mudanças circadianas nos valores dos
limiares de dor em humanos, documentadas através de vários estudos
neurofisiológicos, Nappi e col., em 2002, estudaram o limiar do
reflexo de flexão nociceptiva em 25 pacientes com CS episódica e
seis pacientes com CS crônica. |
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Esta resposta reflexa foi obtida
através da excitação ao nível do bíceps femoral, por estímulo do
nervo sural, no tornozelo, 24 horas por dia, por 10 dias. Seria um
método indireto utilizado para avaliar o ritmo circadiano. Nos
pacientes com CS episódica, uma redução significativa do limiar foi
observada, o que não ocorreu nos casos crônicos. Os autores concluem
que estes achados indicam um defeito no sistema de controle da dor,
que está associado a falhas periódicas dos mecanismos envolvidos no
relógio biológico.

Além da ritmicidade, o envolvimento hipotalâmico começou a ser
sugerido principalmente pelas várias alterações hormonais detectadas
nestes pacientes e pela resposta ao tratamento com lítio:
a - Lítio / Serotonina
O lítio parece ter grande importância nas desordens fásicas, a
partir da observação da resposta ao tratamento em doenças como
distúrbio bipolar, cefaléia hípnica, jet-lag e CS. Embora o lítio
não apresente efeito na hemodinâmica cerebral dos pacientes com CS,
existem evidências de sua ação aumentando a neurotransmissão
serotoninérgica, principalmente no hipocampo, local onde os
receptores serotoninérgicos sofrem a regulação com o tratamento (down-regulation).
Acredita-se que a ação do lítio seja relacionada à eferência das
fibras do núcleo supraquiasmático. A relação com a serotonina tem
sido relatada e em 1962, Dalessio sugeriu provável defeito na
modulação da sua liberação. Medina e col. demonstraram, através do
uso do lítio, que os níveis plasmáticos da serotonina e histamina
plaquetária caem durante a melhora e aumentam durante a recorrência
da dor. Com isso, acredita-se que as alterações nas aminas são
conseqüência e não causa, no controle da dor.
b - Alterações Hormonais
Os seguintes hormônios foram avaliados:
Testosterona
A significativa queda dos níveis de testosterona plasmáticos nos
pacientes com cefaléia em salvas durante a salva foi a primeira
evidência do envolvimento hipotalâmico. As alterações
endocrinológicas começaram a ser percebidas a partir da década de
60. A participação da testosterona foi sugerida a partir da
observação da maior incidência no sexo masculino e pelo fato da
doença ser rara antes da adolescência. Além disso, explicaria as
alterações vasculares, por agir na contractilidade dos mesmos.
Graham, em 1969, observou que as mulheres portadoras de CS
apresentavam aparência masculinizada. Com os estudos, detectou-se
diminuição nos níveis de testosterona plasmáticos, somente durante a
salva, em pacientes com CS episódica. Os maiores níveis plasmáticos
da testosterona são encontrados, em condições normais, durante os
períodos de sono REM. De acordo com Evans, a queda plasmática da
testosterona ocorre quando há um distúrbio do sono REM.
Provavelmente esta queda encontrada nos pacientes com CS é
conseqüência da relação com o sono.
Tireotropina (TRH)
A resposta reduzida ao teste da tireotropina (TRH) é um suporte
adicional na participação hipotalâmica.
Cortisol
O hipotálamo é responsável pela liberação do hormônio liberador da
corticotrofina (CRH), que por sua vez, age na hipófise estimulando a
liberação do hormônio adrenocorticotrófico (ACTH). Este age na sua
glândula-alvo, a supra-renal, estimulando a produção de cortisol. O
CRH recebe influências de vários neurotransmissores como
acetilcolina e serotonina, para liberação e o ácido
gama-aminobutírico (GABA) e a norepinefrina, para inibição.
Alterações hipotalâmicas podem influenciar diretamente, através de
um feedback negativo, o cortisol liberado. Os níveis basais do
cortisol estão significativamente elevados durante as salvas e nos
períodos de remissão. Ekbom, em 1994, verificou alteração no
cortisol, em estudo com hormônio corticotrófico ovino estimulando
sua liberação. Este fato foi verificado dentro e fora da salva,
talvez por alteração no eixo hipotálamo-hipófise-adrenal.
Facchinetti e col., em 1986, detectaram aumento do cortisol, com
níveis de LH normais e aventaram a possibilidade da alteração ser
uma resposta ao estresse.
Melatonina
Apresenta-se diminuída durante a salva, havendo uma redução do seu
pico noturno. Produzida pela pineal, é um marcador do sistema
circadiano. A pineal recebe inervação simpática do hipotálamo, dos
centros autonômicos da medula torácica, do plexo cervical simpático
e do plexo carotídeo. O estímulo ambiental para a produção de
melatonina é a intensidade da luz. Esta informação vem diretamente
da retina para os núcleos supra-quiasmáticos, pelas vias
retino-hipotalâmicas. No escuro, há liberação de norepinefrina nas
fendas sinápticas da pineal, ativando a N-acetil-transferase, enzima
que catalisa e estabelece o ritmo da biossíntese de serotonina e
posteriormente melatonina, a partir do triptofano. Portanto,
normalmente os níveis estão diminuídos durante o dia e aumentados à
noite. Vários estudos detectaram a diminuição da melatonina no
período da salva. Chazot, em 1984, realizou um estudo dosando
periodicamente os níveis plasmáticos de melatonina, entre outros
hormônios, em pacientes com CS episódica e indivíduos saudáveis. Os
pacientes apresentaram diminuição na secreção de melatonina. Em
1994, Waldenlind e col. avaliaram a concentração urinária de
melatonina em 29 pacientes com CS episódica e 29 controles,
mensalmente, por oito a 14 meses. A melatonina se manteve baixa,
independente do período. Estes estudos contribuem para a hipótese de
repercussão neuroendócrina em conseqüência da disfunção no relógio
biológico.
Hormônio do Crescimento (GH)
Também produzido na adenohipófise, o hormônio do crescimento (GH)
sofre influências do núcleo supraquiasmático, determinando sua
liberação de forma cíclica. Alterações no sono afetam diretamente
este processo, visto que sua produção ocorre principalmente durante
o sono delta. Em crianças e adultos com sono delta prolongados, são
obtidos episódios secretórios de grande magnitude, enquanto em
idosos, que apresentam fisiologicamente diminuição desta fase, o GH
não é secretado, ou o é de forma mínima. Kudrow, em 1979, relatou
características acromegálicas em seus pacientes do sexo masculino.
Outras alterações no GH também têm sido detectadas em pacientes com
CS.
Várias alterações hormonais já foram detectadas em pacientes com CS,
mas as avaliações da dinâmica neuroendócrina são geralmente difíceis
de se realizar. Um estudo recente com 20 pacientes avaliou o
envolvimento hipotalâmico através do uso do sumatriptano. Sabe-se
que o sumatriptano, um agonista seletivo 5HT1B/1D, induz, em
indivíduos normais, um significante aumento da concentração
plasmática do GH e a redução da prolactina, ACTH e cortisol. Estudos
em animais mostraram que estes efeitos se devem à ativação dos
receptores hipotalâmicos 5HT1D. Portanto, estes efeitos
neuroendócrinos causados pelo sumatriptano foram usados como forma
de exploração da função serotoninérgica “in vivo”. Os autores
concluíram que realmente parece haver uma disfunção neste mecanismo
já que os pacientes com CS não apresentaram as respostas acima
descritas, após o uso do sumatriptano.
D - Hipoxemia
Após a observação da eficiência da inalação de oxigênio no
abortamento da crise, houve uma tendência à ligação fisiopatogênica
com a hipoxemia. Outros fatores incentivaram a pesquisa no assunto,
como o relato comum pelos pacientes de ataques provocados em grandes
altitudes e por substâncias como o álcool, histamina e
nitroglicerina, que podem afetar o estado hipoxêmico caso o
mecanismo regulador esteja alterado. O corpo carotídeo, estrutura
localizada no ângulo de bifurcação da artéria carótida comum, tem
sido há muito reconhecido pela importância no arco reflexo
respiratório. Quimiorreceptores, situados nesta região, são ativados
pela diminuição de oxigênio dissolvido no plasma, correspondendo a
2% de todo o oxigênio que passa dos alvéolos aos capilares
sangüíneos. Cerca de 98% se combinam a hemoglobina. A hipercapnia e
o aumento da concentração dos íons hidrogênio parecem estimular
diretamente o centro respiratório. Nervos aferentes do corpo
carotídeo conduzem os impulsos para o nervo glossofaríngeo e vago,
via núcleo do tracto solitário, ativando o centro respiratório. Como
resultado, observa-se aumento da freqüência respiratória,
determinado pelo aumento da deflagração de neurônios motores
somáticos destinados aos músculos intercostais e diafragma, por
fibras reticuloespinhais.
O núcleo solitário tem conexões com os núcleos do facial, vago e
células reticulares do centro vasomotor, que através das fibras da
via reticuloespinhal, conduz impulsos às células do gânglio cervical
superior. Os impulsos eferentes simpáticos do gânglio cervical
superior atingem o corpo carotídeo. A estimulação neste trajeto
evidencia diminuição do fluxo sangüíneo por vasoconstricção,
aumentando a atividade dos quimiorreceptores, possivelmente mediada
por alterações no consumo de oxigênio (CAMPAGNOLE-SANTOS e HAIBARA,
2001).
A influência do hipotálamo anterior em respostas cardiovasculares
foi demonstrada por Hilton e Spyer, em 1971. Estímulos em áreas
depressoras do hipotálamo anterior causaram queda da pressão
arterial (PA), bradicardia e diminuição na freqüência cardíaca. Os
autores sugerem inibição simpática e estimulação vagal. Mills e
Sampson, em 1969, demonstraram que a secção de fibras
pós-gangliônicas simpáticas no corpo carotídeo abolia a resposta
respiratória à estimulação simpática. Com isso, acredita-se que a
atividade simpática alterada no corpo carotídeo pode reduzir a
atividade quimiorreceptora, podendo representar a alteração presente
durante a salva.
Portanto, a salva pode ser uma conseqüência da diminuição da
atividade simpática e estimulação da desinibição parassimpática no
corpo carotídeo. É improvável que os ataques ocorram como resultado
direto destas alterações. Provavelmente, há um envolvimento
fisiológico associado a condições facilitadoras, tais como a
inibição dos músculos respiratórios na fase REM, bradicardia e
hipoventilação na fase NREM, uso de vasodilatadores, hipóxia
relacionada à altitude e apnéia do sono.
E - Relação do Hipotálamo/Distúrbios Respiratórios do
Sono/Cefaléia em Salvas
Baseados na hipótese de que os ataques estariam ligados à
dessaturação de oxigênio, Kudrow e col., em 1984, realizaram um
estudo em 10 pacientes com CS, através de exames polissonográficos
noturnos. Observaram que 60% apresentavam apnéia do sono. Todos os
pacientes com CS episódica e um paciente com CS crônica. Nos
apnêicos, a dessaturação de oxigênio precedeu a crise em 57%, a
maioria durante o sono REM. A eficiência do sono foi diminuída nos
pacientes apnêicos. Concluíram que a apnéia do sono foi encontrada
em maior prevalência entre os pacientes com CS - principalmente a
episódica - e que os episódios de hipóxia podem ser os grandes
deflagradores dos ataques da CS, principalmente durante o sono REM.
Em 1990, os mesmos autores, observaram que em 25 pacientes, todos
tinham crises deflagradas por hipoxemia e sugeriram alteração
central de autorregulação, compensada pela dessaturação, associada
ou não à atividade anormal dos quimiorreceptores periféricos.
Zhao e col., em 1990, compararam 15 controles com 25 pacientes com
CS, separados de acordo com a fase de remissão ou não, analisando a
relação das crises com a hipóxia. Os pacientes inalaram 12% de
oxigênio (88% nitrogênio) por 30 minutos e o decréscimo da saturação
de oxigênio foi monitorado. Verificou-se que a saturação basal dos
pacientes que estavam na salva tinha uma tendência à redução, porém
não houve diferença significativa entre os três grupos. Somente um
paciente apresentou crise típica. Portanto, ao contrário de outros
estudos, que foram predominantemente noturnos, este não demonstrou
papel importante da hipóxia na deflagração das crises. Com isso,
acredita-se que entre os pacientes com apnéia do sono, este número
seja bastante significativo.
A fim de avaliar o real papel do corpo carotídeo na patogênese, Shen
e col., em 1993, avaliaram 20 pacientes (11 na salva e nove em
remissão) comparando-os com grupo controle correspondente e
verificaram a resposta ventilatória à hipóxia transitória induzida
por nitrogênio puro (100%). Não houve diferença significativa entre
os grupos. Com isso, o autor sugere não haver alteração nos
quimiorreceptores, colocando a possibilidade na patogênese como
improvável. Kudrow e Kudrow, através de um editorial no mesmo ano,
citam o trabalho destes autores e contestam a conclusão, julgando-a
precipitada. Afirmam que este estudo não impossibilita o papel dos
quimiorreceptores, já que a atividade dos mesmos não foi avaliada
durante um evento duradouro de hipoxemia, como grandes altitudes e
apnéia do sono (condições particularmente relevantes na CS). Em
1994, Shen e Schaanning, observaram as alterações na freqüência
cardíaca durante as crises induzidas por hipóxia, sem a
administração de nitroglicerina, que parecia influenciar no
resultado por seu efeito vascular. Concluíram que as mudanças no
pulso são provavelmente devidas a alterações primárias autonômicas.
Hinrichsen, Maskrey e Mortola, em 1998, avaliaram a participação do
núcleo hipotalâmico da termorregulação na integração das respostas
metabólicas e respiratórias, concluindo a importância do hipotálamo
anterior e posterior nestas respostas. Em 1995, Ryan e Waldrop, em
estudos laboratoriais, sugeriram a participação do hipotálamo caudal
e projeções da substância cinzenta periaquedutal na integração da
resposta à hipóxia. Através de estudos em ratos e gatos, foi
demonstrada a participação do hipotálamo caudal na modulação da
resposta cárdio-respiratória à hipóxia, com influência excitatória.
Em 1992, Peano e col. verificaram que a inibição GABAérgica dos
neurônios do hipotálamo posterior modula a resposta respiratória à
hipercapnia. Os estudos sobre os mecanismos respiratórios sugerem um
controle multifacetado, que varia de acordo com a necessidade
fisiológica e envolve vários centros de comando, incluindo
hipotálamo, regiões suprapontinas, pontinas e medulares, além de
regiões corticais. O reflexo trigêmino-pupilar representa um reflexo
multi-sináptico, com sua aferência trigeminal e sua eferência
simpática e parassimpática. O grande número de conexões pode
explicar a bilateralidade da resposta e sua correlação com a
intensidade do estímulo. Em pacientes com CS, Micieli e col., em
1993, encontraram resposta pupilar alterada ao estímulo córneo
durante a salva. Somente a fase simpática estaria afetada, tendo
sido observado em resposta ao estímulo indolor, ipsilateralmente e
em resposta à dor, bilateralmente. Os autores propõem disfunção
simpática central.
O hipotálamo posterior contém células que regulam funções
autonômicas, enquanto o hipotálamo anterior contém células
formadoras do relógio biológico (núcleo supraquiasmático). A
ativação completa é necessária para explicar o quadro.
A ativação hipotalâmica durante os ataques foi observada, através da
tomografia por emissão de pósitron (PET), somente nos pacientes em
crise. O exame foi realizado em nove pacientes com CS episódica,
fora da salva e oito pacientes com CS crônica, que foram induzidos
ao ataque, com nitroglicerina. O mesmo grupo mostrou que estas
alterações não poderiam ser replicadas em modelos experimentais de
dores estimuladas no primeiro ramo do trigêmeo. Contudo, observou-se
ativação no córtex insular bilateral, no tálamo contralateral, no
córtex cingular anterior ipsilateral e no cerebelo. Parece que a
ativação do córtex cingular está relacionada à resposta emocional da
dor, já tendo sido observada em estudos de dor visceral e a ativação
do córtex insular parece estar relacionada ao calor. Estes achados
também foram encontrados no estudo anterior e em outros estudos com
outros tipos de dor, porém a ativação hipotalâmica foi restrita aos
pacientes com cefaléia em salvas. Esta especificidade foi constatada
em um estudo com um paciente que apresentava migrânea e CS
episódica. O exame de PET foi realizado durante a crise de migrânea,
revelando ativação rostral do tronco cerebral, reafirmando a
ativação do hipotálamo ipsilateral exclusivamente na CS.

Silberstein,
em 1998, também verificou uma ativação hipotalâmica ipsilateral em
nove pacientes em crise, somente no momento da dor. Além dos achados
com o PET, estudos utilizando a ressonância magnética por
espectroscopia demonstraram a presença de uma assimetria deste
local.
Parece que o hipotálamo póstero-inferior tem um volume maior nos
pacientes com CS, dentro e fora da salva. As áreas encontradas nos
estudos com diferentes exames foram idênticas. Portanto, as novas
descobertas em relação à CS impulsionaram novos tratamentos
cirúrgicos com estimulações estereotáxicas no hipotálamo
póstero-inferior, principalmente visando os pacientes com CS crônica
sem resposta ao tratamento clínico. Neste estudo, dos sete pacientes
operados, houve grande melhora em seis. Em conjunto, estes achados
acarretam na proposta de que o hipotálamo seria realmente o sítio
gerador da dor.
F - Hipótese Neurovascular
Uma disfunção hipotalâmica resultaria em alterações do sistema
nervoso autônomo. Especificamente, é sugerido que durante a salva, a
atividade dos quimiorreceptores estaria alterada por inibição
central do tônus vasomotor simpático e estimulação parassimpática. A
miose e a ptose seriam causadas pela hipofunção simpática, enquanto
o lacrimejamento, a hiperemia conjuntival e a obstrução nasal,
causados por uma hiperatividade parassimpática. A liberação de
neuropeptídeos produz uma vasodilatação e gera o caráter pulsátil da
dor. Na opinião de Goadsby, estes achados justificariam a
classificação da cefaléia em salvas como um distúrbio neurovascular.
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