|
A cefaléia é um fenômeno conhecido desde os primórdios da história
da humanidade. Há descrições e achados arqueológicos que sugerem uma
data aproximada de 7.000 anos a.C. Nesta época, o tratamento usado
era a trepanação “in vivo”, onde havia a crença de que a dor era
causada por maus espíritos e a abertura de orifícios no crânio
permitiria a saída destes espíritos. Vários relatos foram feitos ao
longo dos séculos.
|

Papiro de Ebers |
À semelhança da mitologia grega,
também as divindades egípcias padeceram de cefaléia, como
atestam os parágrafos dos papiros de Ebers, Beatty V, relatos
mitológicos relacionados à cefaléia. Por volta de 1.500 a.C.,
como na descrição no papiro de Geoge Ebers, o tratamento da
dor era feito com o médico amarrando com puro linho à cabeça
do paciente, um crocodilo de argila com trigo na boca, sobre o
qual deviam estar escritos nomes de deuses.
Neste mesmo papiro há relatos de
remédios para dor de cabeça à base de mel e óleo de rícino. No
papiro de Chester Beatty V, datado de 1.300 a.C., há prescrições em
forma de magia natural para dor de cabeça, além de fazer relato do
termo “ges-tep”, que seria dor em uma metade da cabeça, como
sinônimo de hemicrania. Neste, o médico orienta: |
[...] repetir sete vezes. Escapate feche a têmpora esquerda. Após,
prepararás a oferenda para os deuses e prepararás o remédio para
conseguir arrancar a semente dos deuses que se encontra no interior
do corpo.
|
A figura mitológica do deus Hórus aparece freqüentemente associada à
cefaléia. Conta uma passagem, que ao escalar uma montanha, em pleno
verão, Hórus foi surpreendido por uma forte dor de cabeça e ao
encontrar deuses que celebravam um banquete, recusou o convite
porque a dor o tirava o apetite. As características citadas são
sugestivas de enxaqueca, onde é descrita a forte intensidade, os
fatores desencadeantes prováveis como sol, calor e esforço físico e
a inapetência, podendo também corresponder à náusea.
Outras observações foram feitas ao longo dos séculos e geralmente as
atenções eram voltadas para descrições sugestivas de crises de
enxaqueca, que já parecia se manifestar mais freqüentemente. |
 |
As primeiras descrições da cefaléia em salvas (CS) datam do século
XVII, sendo a mais antiga de 1641, onde Nicolaas Tulp (1593-1674),
um famoso médico clínico e anatomista de Amsterdam, publicou uma
série de casos clínicos com o título de “Observationes Medicae”.
Neste relato, ele menciona dois diferentes tipos de “cefaléias
recorrentes”, baseado nas características clínicas e na resposta ao
tratamento. Um provável caso de migrânea e outro de cefaléia em
salvas. Este último foi descrito pelo paciente, com suas próprias
palavras:
|

Nicolaas Tulp |
No início do
verão, era acometido de cefaléia intensa, ocorrendo e
desaparecendo diariamente em horários fixos, com tal
intensidade, que me assegurava que não podia mais suportar a
dor ou morreria rapidamente. Raramente durava mais que duas
horas. E no restante do dia, não havia febre, indisposição na
urina, nenhuma fraqueza no pulso. Mas esta dor recorrente
durava até o décimo-quarto dia [...]
Esta descrição não menciona a presença
explícita de dor unilateral e fenômenos autonômicos. Talvez o
paciente tenha omitido e o médico, não habituado com a síndrome, não
o argüiu a respeito. |
Por outro lado, uma identificação
retrospectiva da cefaléia em salvas poderia particularmente ser
baseada no seu caráter cíclico e na intensidade excruciante, para diferenciá-la de
outras algias crânio-faciais. Este foi o primeiro provável caso
descrito de cefaléia em salvas.
Outro provável caso foi descrito por Thomas Willis (1621-1675), que
muito contribuiu para observação dos diversos tipos de cefaléias.
Ele distinguiu três tipos: contínuo, intermitente e intermitente com
ataques incertos. Na segunda forma, a característica de
periodicidade é relatada. Dois outros registros foram feitos por
Morgagni (1761) e Whytt (1764), referidos por Eadie, em 1992.
Em 1993, Isler publicou uma descrição feita por Gerard Van Swieten’s
em 1745. Somente foi descoberta em 1992, em latim, sob o título de
van Switen’s “Commentaria”:
Um homem de meia idade, saudável, robusto, estava sofrendo de dor
que aparece diariamente, no mesmo horário, no mesmo local, em torno
da órbita no olho esquerdo, onde o nervo emerge, na abertura do osso
frontal; após um período curto, o olho esquerdo se torna vermelho e
transborda em lágrimas; depois, ele sente como se seu olho estivesse
sendo empurrado para fora da órbita, com tanta dor que parece que
vai levá-lo à loucura. Após algumas horas, todos estes eventos
cessam, e nada no olho se assemelha com aquela mudança.
Eu ordenei uma sangria, dei purgantes antiinflamatórios,
freqüentemente aplicava porções no seu pescoço, coloquei-o em
isolamento, mas tudo em vão.
Mas na tentativa de entender esta fabulosa doença, eu ia ver o
paciente na hora que ele sentia que a dor retornaria, e eu vi todos
os sintomas por ele mencionados; porém, no pulso radial, não
descobri alteração.
O paciente me lembrou, enquanto eu sentava ao seu lado, que ele
sentia uma forte pulsação no ângulo medial do seu olho.
Eu coloquei a ponta do meu dedo menor na artéria que passa no
ângulo, suficientemente palpável, enquanto minha outra mão sentia o
pulso radial.
E depois, eu objetivamente percebi como esta artéria do ângulo
estava pulsando mais rapidamente e fortemente do que normalmente e
naturalmente ocorre.
Eu, portanto acreditei que havia febre, mas localizada; e eu dei
quinina e curei a dor com sorte: e eu aprendi a partir deste caso, a
usar o mesmo remédio posteriormente em casos semelhantes.
Esta descrição histórica foi a primeira a preencher os critérios da
Sociedade Internacional de Cefaléia (SIC) para CS episódica.
Os aspectos clínicos têm sido abordados na literatura desde a metade
do século XIX, sob a denominação de vários epônimos. Em 1822,
neuralgia espasmódica por Hutchinson. Romberg, em 1840, apresentou
um quadro sugestivo, sem denominá-lo. Em 1867, Mollendorf se refere
à CS como enxaqueca vermelha. Eulenburg, em 1878, denominou-a
hemicrania angioparalítica. Sluder, em 1910, a descreve como
neuralgia esfenopalatina ou síndrome de Sluder, e Bing, em 1913,
como eritroprosopalgia ou síndrome de Bing. Vallery-Radot e
Blamoutier, em 1925, a descreveram como síndrome de vasodilatação
hemicefálica de origem simpática. Harris, em 1926, a denomina
neuralgia migranosa periódica e em 1936, neuralgia ciliar. Parece
que este neurologista londrino teria sido o primeiro a notar os
sinais autonômicos presentes na crise. Em 1930, Charlin a chama de
síndrome do nervo nasociliar. Em 1932, Vail a denominou neuralgia
vidiana. Em 1935, Brickner e Riley a denominam de faciocefalalgia
vegetativa ou autonômica.
O mais completo relato da síndrome foi apresentado em 1939, por
Horton, Mclean e Craig, com a denominação de eritromelalgia cefálica
e em 1952, pelos mesmos autores, de cefaléia histamínica, cefaléia
de Horton ou síndrome de Horton. Em 1947, Gardner, Stowell e
Dutllinger a descreveram como neuralgia do grande nervo petroso
superficial ou neuralgia petrosa superficial. Embora alguns autores
discordem de que Horton tenha sido o primeiro a descrever o quadro
mais completo da CS, todos são concordes em que o autor, após seus
trabalhos, fez com que o quadro clínico passasse a ser reconhecido e
divulgado. Em 1956, Horton já destacava a freqüência noturna e o
horário que o paciente é acordado pela dor, geralmente uma a duas
horas após o início do sono. Menciona o álcool como deflagrador na
salva e sugere a diidroergotamina e a inalação de oxigênio para
tratamento da crise.
O termo “Cluster Headache” foi primeiramente usado por Kunkle e col.,
em 1952, para destacar a forma típica de recorrência da dor. Em
1958, Friedman e Mikropoulos ampliaram o quadro clínico e
legitimaram o termo “Cluster Headache”. Symonds (1956) contribuiu
com uma narrativa mais minuciosa, porém não acrescentou novas
informações. Em 1965, Heyck, a caracterizou como síndrome
cefalálgica de Bing.
Descrições e Nominações da Cefaléia em
Salvas ao Longo do Tempo
-
1822 - Hutchinson - Neuralgia
espasmódica
-
1840 - Romberg - quadro sugestivo sem
denominação
-
1867 - Mollendorff - Enxaqueca
Vermelha
-
1878 - Eulenburg - Hemicrania
Angioparalítica
-
1910 - Sluder - Neuralgia
Esfenopalatina ou Síndrome de Sluder
-
1913 - Bing - Eritroprosopalgia ou
Síndrome de Bing
-
1925 - Vallery-Radot e Blamoutier -
Síndrome de Vasodilatação
-
Hemicefálica de Origem Simpática
-
1926 - Harris - Neuralgia Migranosa
Periódica
-
1927 – Sluder – Enxaqueca Associada a
Fenômenos Simpáticos
-
1928 – Glasser – Neuralgia Atípica
-
1930 – Charlin – Síndrome do Nervo
Nasociliar
-
1932 - Vail - Neuralgia Vidiana.
-
1935 – Brickner e Railey –
Faciocefalalgia Vegetativa ou Autônoma
-
1936 - Harris - Neuralgia Ciliar.
-
1939 - Horton, Mclean e Craig –
Eritromelalgia Cefálica
-
1947 - Gardner - Neuralgia Petrosa
Superficial
-
1947 - Gardner,Stowell e Dutllinger -
Neuralgia do grande nervo petroso superficial ou Petrosa Superficial
-
1952 - Horton, Mclean e Craig/Kunkle/Symonds
- Cefaléia Histamínica, Cefaléia de Horton ou Síndrome de Horton
-
1958 - Friedman e Mikropoulos -
“Cluster Headache”
-
1965 - Heyck - Síndrome cefalálgica de
Bing
-
1979 - Raffaelli - Cefaléia em Salvas
Em 1969, Graham descreveu, pela
primeira vez, as características faciais típicas associadas à CS,
mencionando o aspecto “leonino” e a presença de telangectasias,
sulcos faciais profundos e pele em “casca de laranja”,
assemelhando-se à fácies de um alcoólatra.
Na literatura nacional, por muito tempo, essa forma clínica de dor
de cabeça foi conhecida como “cefaléia histamínica” ou “cefaléia de
Horton”. O termo cefaléia “em salvas” se deve a Raffaelli (1979),
logo se tornando a designação oficialmente aceita e recomendada pela
SBCe.
|